Memento Mori do artista plástico. Acrílica sobre tela “reciclada”, 50 x 70 cm. 2021.

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Comecei o ano pensando em abandonar as caveiras, deixar de lado essa coisa de MementoMori, pois a realidade do mundo já é, para mim, um lembrete constante da morte. Com a pandemia dividindo o mundo em quem valoriza a vida e quem banaliza a morte, tenho receio de parecer estar no lado de quem banaliza.

O medo que tenho de ser responsável pela morte de um ente querido me aterroriza todos os dias. Perco, cada vez mais, o sono e a vontade (que nunca foi grande), de interagir com outras pessoas. Um coração partido e mais um suicídio na família também pesaram na vontade de se afastar de toda essa morbidez. Mas a melancolia faz parte de mim e até gosto dela, a vejo como uma tristeza racional. Então, parar de pintar ou escrever (ainda tenho blog), seria, em parte, deixar de ser quem sou. Mas não quero que minha arte pareça banal.

Banal é uma palavra massa! Sua origem remota o uso público de certas propriedades de um senhor feudal. Eram banalidades coisas como um poço de água, todos que pagassem tributo ao senhor da terra poderiam usar. E quem não pagava impostos e não podia usá-las, eram os “banidos”. “Banditos” na Itália. Bandidos, para nós. Mas hoje banal é algo sem valor por ser comum, normal… Assim como penso que a contagem de mortos, apenas por contagem de números, banaliza a perda de quem continua vivo.

Epicuro afirmava que a morte não é nada para nós, pois quando morremos não estamos mais lá para recebê-la, da mesma forma que enquanto vivemos a morte ainda não é uma realidade. Porém, isso não considera a morte do Outro e a dor da perda para quem continua vivo. 

O luto, dor que pode ser sentida até quando a morte não é realidade. Uma separação, uma desilusão, um menosprezo, uma quebra de confiança, a desesperança e a solidão, penso que são exemplos de pequenas mortes do dia a dia. Claro, há quem supere e quem não sinta tanto assim. E há quem não sinta nada e ainda por cima banaliza a dor do outro.